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Isto é um livro de autor explora a autoria e o papel do leitor, ao questionar a credibilidade e estabilidade da página e do livro enquanto objecto.
E o que é um leitor, afinal? É um voyeur como afirma Espen Aarseth? Ou um autor, como enuncia Roland Barthes?
E o que é um autor? Quão importante é o nome de um autor – uma espécie de marca – para um determinado conteúdo? Será uma garantia imediata de valor? Transportará a obra para territórios imediatos de credibilidade e legitimidade?
O projecto não tem por objectivo responder a estas questões (quanto muito encontrar novas perguntas), mas simplesmente relançar o debate. Para testar o leitor, nas quatro publicações que constituem este projecto encontramos erros, mentiras e inconsistências.

1. The Man Who ####

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The Man Who Lies (ou L’Homme Qui Ment, título original) é um filme de Allain Robbe-Grillet, de 1968.
O filme trata de um personagem cuja identidade nos é desconhecida. Ao longo do filme, o “homem que mente” vai narrando episódios da sua suposta vida, improvisando consoante as situações e aproveitando aquilo que ouve, sendo perceptíveis várias contradições. Para o espectador, que não está habituado a este tipo de narrativas, que não têm fim nem permitem que se chegue a nenhuma conclusão, esta é uma experiência no mínimo estranha. O predomínio da mentira é claro.
Na publicação homónima foram transcritas as legendas do filme, não sendo no entanto reveladas nenhumas indicações cénicas, o que compromete 
a compreensão de alguns excertos.

2. Citações de: A. D’Almeida S. Sousa, Angel Crespo Cristiano Lima, Espen Aarseth, Jacques Derrida, Jay David Bolter, Michel Foucault, Roland Barthes
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Em Citações de: A. D’Almeida S. Sousa, Angel Crespo Cristiano Lima, Espen Aarseth, Jacques Derrida, Jay David Bolter, Michel Foucault, Roland Barthes são apresentadas várias citações pertinentes, mas estas foram submetidas a um processo de tradução através do Google. Não sendo a tradução fiável (até porque percorreu um longo caminho até voltar, de novo, ao português), o resultado final afasta-se bastante do original, perdendo-se o seu significado. O caminho percorrido terá sido: Português—Russo—Sueco—Alemão—Espanhol—Francês—Grego—Inglês—Italiano—Latim—Português. Questionámos até que ponto poderá uma tradução induzir-nos em mentira, especialmente tendo em conta a interpretação do texto original pelo tradutor, que nem sempre poderá ser a mais correta. Nas páginas seguintes encontram-se as citações originais.

3. A História da Ruminação: prolegômenos de Jacques Derrida
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Em A História da Ruminação: prolegômenos de Jacques Derrida, deveria ler-se História da Mentira: prolegômenos. Seguindo a lógica de Wirikuta, foi feita uma troca de nomes, que resultou num texto sem sentido. A farsa é evidente e, no entanto, o conteúdo não é uma mentira, existe apenas um novo código que exige decifração. 
Deste modo, o impulso em olhar para um objecto de autor e atribuir-lhe maior significância é questionado.

4. Fotografias Inéditas na Colecção de Mafalda Sequeira
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Na publicação Fotografias Inéditas na Colecção de Mafalda Sequeira, todas as fotografias colocadas representam, de algum modo, um hoax.
«Vivemos (…) num tempo de perversa vulnerabilidade das imagens. Dito de outro modo: o digital instalou uma espécie de liberalismo sem rosto (ou sobre os rostos…) em que nenhuma imagem é um dado definitivo ou aquietado. Em boa verdade, já não é imagem, mas um mero traço de circulação informativa.» (Lopes, 2011)
A manipulação da imagem não é uma novidade do digital. No entanto, e com a democratização das suas ferramentas, o digital vem torná-la mais simples. Qualquer um pode criar uma imagem e divulgá-la como verdadeira, construindo assim a sua realidade. Acerca do assunto, Derrida (1995: 13) afirma: «(…) uma imagem, à diferença de um retrato ao modo antigo, não tem apenas o papel de idealizar a realidade, mas de substituí-la por completo. Tal substituto, por causa das tecnologias modernas e da mídia, destaca-se, evidentemente, mais do que o original. (…) já que a imagem-substituto não remete doravante ao original nem mesmo a um original representado de forma lisonjeira, mas o substitui com vantagem, passando do estatuto de representante ao de substituto, o processo da mentira moderna já não seria a dissimulação que veio encobrir a verdade, mas a destruição da realidade ou do arquivo original: ‘Em outros termos, a diferença entre a mentira tradicional e a moderna equivale (…) 
à diferença entre esconder e destruir’.»

Mafalda Sequeira
2010/11, 1º ano/2º semestre, Projecto II + Laboratório II